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Todas as noites, antes de dormir, Larissa ia no mesmo lugar, no quarto de sua falecida filha, caso bárbaro, que ocorrera quando a menina tinha apenas quatro anos. Isso foi a seis meses atrás, mas a mulher, tendo recentemente perdido o marido, guardava em seu peito uma dor tão grande… Era batalhadora, porém nem sempre a cruz que carregava era em um peso suportável.
Larissa sofria com estranhos pesadelos todas as noites. Via sua filha, mas não em um lugar bom. Via a menina pedindo socorro, pois queria sua mãe, e não a encontrava. Era desesperador, ver sua própria filha entregue em um mundo de sombras, cercada por uma espécie de mobília, e não poder fazer nada. A única coisa que sobrara para Larissa era seu namorado, Igor, um homem bastante gentil e compreensivo, que apoiava Larissa em suas decisões, e a ajudava a esquecer os recentes fatos de seu passado. Ele era o melhor amigo de seu marido, e acabou se apaixonando pela moça quando este veio a falecer.
Em uma noite bastante caótica e chuvosa, em que mesmo sem energia, os raios iluminavam toda a casa, Larissa acordou no meio de um de seus estranhos sonhos. Talvez por isso, ao abrir os olhos, deparou-se com um vulto, semelhante as feições de sua filha. Gritou na hora, mas logo depois, ao perceber que “aquilo era somente fruto de sua imaginação” voltou a ser dominada por suas lágrimas. Foi até a cozinha, tomou um copo de água, e voltou a se deitar.
Sem conseguir dormir, pensando em sua filha, Larissa ficou a lembrar de todos os momentos que viveu com a garotinha: O modo engraçado como ela brincava de boneca, arrumando os cabelos delas iguais ao da mãe, sempre repartidos ao meio. A forma como escrevia, ainda com caligrafia espelhada, sem nenhuma coerência, mas divinamente, e o jeito doce como recitava “mamãe”, com aqueles lindos olhos verdes, tão brilhantes… Vê-los fechados diante do caixão em que fora posta, doeu na alma. Era uma linda menina, que injustamente foi levada para longe da mãe.
Enquanto estava deitada, somente com as luzes dos raios, ouviu um barulho estranho, como se alguém mexesse dentro do guarda roupas do seu quarto. Era sabido que não poderia ser alguém, afinal o guarda roupas não caberia uma pessoa. Abriu para verificar se nenhum rato estava nele, e constatou que não. Voltou a fechá-lo, mas logo o barulho continuou. Ela ignorou, só que incessantemente ele permanecia, até que, bastante cansada e querendo dormir, ela o abriu. Não viu nada, como da última vez, só que percebeu que suas roupas haviam sido reviradas. Retirou todas, uma por uma, mas não havia nada, somente e estranhamente, uma das bonecas de sua filha, colocada no recanto, em uma das quinas. Ainda estava ali, talvez tivesse a posto na época em que sua menina ainda estava viva. Ainda estava penteada, ainda tinha o cheirinho de morango, ainda continha os traços da doçura daquela garotinha. As lágrimas caíam, enquanto ela abraçava a boneca, como se abraçasse a própria filha Tereza.
Só conseguiu voltar a dormir com a boneca nos braços, mas veio acordar ainda cedo, por volta das sete da manhã, para ir ao trabalho, onde atuava como recepcionista de um hotel. Tomou rapidamente o café, arrumou-se e correu para chegar cedo ao trabalho. Enquanto andava no carro, percebeu que seu celular vibrava dentro da bolsa, abriu-a, e percebeu que dentro havia um estranho bilhete, todo amassado, parecendo como se alguém o tivesse escrito com muita pressa. Não leu, o pôs no porta luvas e continuou o seu trajeto, após notar que o celular vibrando foi só impressão sua.
Chegando no trabalho, Larissa sentou-se em sua cadeira como de costume, ligou o computador e normalmente atendeu todos os que por ela passavam, todavia, seu pensamento ainda era fixo em sua filhinha. Nunca se recuperou do trauma, e até mesmo após ter arrumado um namorado as coisas não melhoraram tanto, pois apesar dele ser uma ótima pessoa, carinhoso e compreensivo, ela não consegue sair da casa para morar junto dele. Um drama, que aos poucos terá que se ser vencido.
Era horário de almoço, e enquanto comiam, Larissa percebeu algo estranho ao redor do seu quarto, pois uma multidão o cercava, enquanto uma velha senhora ficava aos berros gritando: “Eu vi! Eu vi sim!”. A mulher e seus colegas de trabalho foram verificar o que ocorria, até que um policial pediu-lhe que abrisse o carro. Assim o fez, mesmo sem entender o que se passava, então o policial disse a senhora: “Está vendo senhora, não existe nenhuma garotinha aqui dentro”. Ele pediu desculpas a Larissa, e foram todos embora, mesmo com a senhora ainda perturbada e repetindo que tinha visto uma menina. Larissa não se exaltou, mas ficara um tanto mexida com a loucura da mulher. Fechou o carro, e voltou ao seu emprego.
Já havia chegado em casa, e desta vez seu namorado estava com ela, iriam dormir juntos, pois após a noite anterior ela ficara com certo medo de dormir sozinha. Já era frequente as quedas de energia naquela casa, apesar das instalações já terem sido trocadas duas vezes naquele mesmo mês, e os dois foram para cama logo cedo.
Enquanto dormiam, novamente Larissa ouviu sons estranhos vindos do quarto de sua falecida filha. Ela não quis acordar Igor, e foi sozinha sob a luz de uma vela para o quarto. Desta vez não era do guarda roupa a fonte dos barulhos, mas vinham da cama. Ela estalava como seu um rato grande estivesse a roendo e ela estivesse prestes a ceder. Larissa, com bastante medo, foi até lá, ajoelhou-se na cama, e lentamente foi virando a cabeça e deitando a vela, de forma que pudesse ver o que estava lá. Logo a vela apagou-se, e Larissa veio a tomar um susto com a presença de seu namorado, que ao notar que ela estava lá sozinha no escuro, foi até lá lhe ajudar.
Os dois verificaram embaixo da cama, mas não tinha nada no local, já iam saindo do quarto da menina, quando Larissa percebeu um pedaço de papel no chão. Era o bilhete que ela havia deixado no quarto, e que provavelmente havia posto no bolso e ele havia caído, pegou ele nas mãos e o leu, sendo surpreendida com o que havia escrito nele:
A mulher se entregou no choro, ao mesmo tempo em que um medo assombrou sua alma. Aquela era a letra de sua filha, e apesar de Larissa não creditar em coisas sobrenaturais, aquilo era diferente… O que pensar? Como agir? Realmente ela não era capaz de entender aquilo.
Continua amanhã...
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